EFC Engenheiros Financeiros & Consultores

O “FLOATING” BANCÁRIO E O PLANO REAL

OPNIÃO

O “FLOATING” BANCÁRIO E O PLANO REAL

Semana iniciada em 16_10_2017

Esta é uma história real, que vivi intensamente. Era o ano de 1993, e o Brasil já havia passado por seis planos econômicos que tentaram – mas não conseguiram – dominar a hiperinflação brasileira, que em alguns meses chegava a 1% ao dia! Duas versões do Plano Cruzado, o Plano Bresser, o Plano Maílson, e duas versões do Plano Collor. Todas falharam. Foi o Plano Real, implantado em primeiro de julho de 1994, com o brilhante artificio de duas moedas coexistindo ( a Unidade Real de Valor, URV e o “cruzeiro real”) que derrubou a inflação.

No inicio de 1993, para inaugurar meu novo escritório de consultoria, trouxe dos Estados Unidos um famoso consultor de bancos, que conheci em Nova Iorque, Andre Cappon.

André é uma figura interessante: nasceu na Romênia, se graduou na Universidade de Bucareste, estudou na França, foi analista da OECD depois de ter obtido seu diploma em matemática no MIT e seu MS em Pesquisas Operacionais na Columbia University, foi VP da Booz-Allen em Nova Iorque e fala sete línguas, entre elas fluentemente o português.

 

Nesse seminário, Cappon afirmou, perante um importante grupo de banqueiros, que no dia em que um plano econômico tivesse sucesso, derrubando a inflação, alguns grandes bancos atuando no Brasil iriam quebrar, informação que se sustentava em suas pesquisas de consultoria bancária feitas em muitos países.

Nesse ano de 1993, meu escritório da Avenida Paulista em São Paulo tabulava cerca de cem balanços anuais de bancos, sendo que nesse ano, o Banco Central do Brasil obrigou os grandes bancos a publicarem suas demonstrações financeiras em moeda constante, isto é, eliminando assim a alta inflação.

Nesses casos, nas contas das suas demonstrações financeiras havia um item chamado “ganhos com depósitos de contas correntes não remunerados”, os chamados depósitos de “floating”, que eram enormes somas que os bancos ganhavam a custa da alta inflação, depósitos esses exigíveis imediatamente mas não remunerados. O que André cappon afirmava era que, se subitamente de um dia para o outro esses depósitos desaparecessem, e se um banco não estivesse preparado para isso, ele quebraria.

Com base nessa afirmação, e dispondo da base de dados dos balanços dos 40 maiores bancos brasileiros, meu escritório, a EFC – Engenheiros Financeiros & Consultores,somou as demonstrações de resultado desses 40 bancos e analiticamente “retirou” a rubrica do “floating”: conclusão, o lucro agregado virava um prejuízo gigantesco. Na época, meu escritório produzia e vendia uma compilação com todos esses balanços, sob o título “Análise do desempenho dos bancos no Brasil” em volumes encadernados.

Pois bem, fui ao Bradesco, na Cidade de Deus (sua sede em Osasco) oferecer o estudo ao Sr. Antonio Bornia, (então Vice Presidente do banco) que se interessou por ver o mesmo. Conseguimos um projetor, e mostrei o estudo em uma tela, no famoso “mesão” do Bradesco. Quando estava mostrando a conclusão do estudo, o Presidente do Bradesco, Lázaro de Mello Brandão, passava ao lado e perguntou ao Sr. Bornia o que era que estava fazendo. Quando entendeu, sentou-se ao seu lado e acompanhou o meu estudo. Claro, fiz a venda!

Esse assunto veio à minha memória – e me levou a escrever esse número do “Opinião” porque, no dia 11 desse mês, o Sr. Brandão (como gosta de ser chamado) se retirou da posição de Presidente do Conselho do Bradesco, aos seus 93 anos, e deu uma entrevista ao jornal “O Estado de São Paulo” no quel declarou textualmente ao repórter, que perguntou  “quais foram os momentos mais difíceis e os que lhe deram mais satisfação?”, ao que ele respondeu, citando a perda do floating[1]:

 O momento mais crítico foi quando veio o Plano Cruzado porque, com ele, a inflação desapareceu e o floating do sistema financeiro também. Os bancos, antes disto, não cobravam tarifas dos clientes. A inflação supria este custo. Tínhamos margem para sobreviver sem tarifa. Até implementar as tarifas e repor as coisas cada uma em seu lugar, tivemos um período de resultados financeiros muito estreitos. Cortamos despesas para compatibilizar com o faturamento. Fechamos 500 agências. Foi um choque em relação à rotina. Mas nós enfrentamos. 

O Bradesco escapou, mas o Banco do Brasil entre 1994 e 1995 perdeu exatamente dois patrimónios liquidos, tendo que ser imediatamente recapitalizado pela a União, seu acionsita controlador. Evidentemente, todos os demais acionistas do BB perderam fortunas com as duas perdas.

 


[1] Fonte, http://cultura.estadao.com.br/blogs/direto-da-fonte/nao-faria-nada-diferente-diz-lazaro-brandao-ao-deixar-comando-do-bradesco/