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Um brasileiro ilustre e honesto: o Visconde de Mauá!

OPINIÃO

Um brasileiro ilustre e honesto: o Visconde de Mauá!

Semana iniciada em 29_05_2017

Irineu Evangelista de Souza, o Visconde de Mauá, criou a primeira ferrovia no Brasil em 1854, inaugurada pelo imperador D. Pedro II e a ferrovia Santos a Jundiaí, inaugurada em 1867 (a São Paulo Railway Company (SPR)

Nota: o sistema da foto, chamado de funicular (endless) foi instalado em 1901. Mais tarde foi trocado por um moderno sistema de cremalheiras, eletrificado.

Irineu Evangelista de Sousa, brasileiro do Rio Grande do Sul, (1813-1889), inicialmente Barão de Mauá, mas antes de falecer elevado ao título de Visconde de Mauá em 1874, foi um pioneiro da indústria brasileira, armador, construtor da primeira ferrovia, e um dos primeiros banqueiros na fase do segundo imperador, D. Pedro II. Irineu era um homem de extraordinária competência, cheio de iniciativas pioneiras. Entre elas, a implantação da primeira fundição de ferro, o primeiro estaleiro naval, a primeira ferrovia, tendo para ela trazido a primeira locomotiva a vapor da Inglaterra, batizada de “Baroneza” em homenagem à sua esposa, Maria Joaquina de Sousa, com quem teve dezoito filhos¹.

Com 27 anos, viaja para a Inglaterra, que estava no apogeu da revolução industrial, onde assimila as novidades, como o setor industrial e ferroviário, bem como toma contato com o mundo capitalista de então. Foi isso que o levou a criar o “Estabelecimento de Fundição e Estaleiros Ponta da Areia” para atuar na indústria pesada, como fundição, estaleiro e caldeiraria, áreas inexistentes no Brasil dessa época, 1846.

Em 1851, Irineu organizou o segundo “Banco do Brazil”² De fato, Diz Daniel Bender, em seus artigos denominados “Homens que você deveria conhecer”(em seu artigo #5) escreve sobre o Barão de Mauá:

“Em 1851 Irineu encabeçou um dos movimentos mais interessantes do império, que lhe provocaria as maiores dores de cabeças. Em parceria com outros empresários, ressuscita o Banco do Brasil com a proposta de oferecer juros baixos para todos que pudessem comprovar o crédito.”³

Sobre esse trecho da vida de Irineu, vale a pena ver o filme sobre sua vida , do qual há um diálogo no qual, ele se apresenta com ações do então Banco do Brazil, em sua assembleia de liquidação, após ter comprado um lote de ações por 20% de seu valor:

– o condutor da assembleia: “Estamos aqui para resgatar as ações do Banco do Brazil”

 -Irineu (então com 18 anos): “também sou acionista”

– o condutor da assembleia, surpreso com a ousadia do rapaz: “posso ver suas ações?” Irineu entrega o pacote das ações, que eram na época ao portador”o condutor, as examinando: “são autenticas; convido-o a participar dessa reunião”.

Anos depois, em 1855, com 182 investidores financeiros, forma Irineu forma também a primeira empresa financeira, a “Mauá, MacGregor & Cia – Instituição Financeira, que em 1867 é sucedida pelo Banco Mauá. Diz sua bibliografia:  “No auge de sua carreira (1860) controlava dezessete empresas localizadas em seis países (Brasil, Uruguai, Argentina, Inglaterra França e Estados Unidos”. E “no balanço consolidado de suas empresas em 1867, o valor total de seus ativos correspondia a 155 milhões de libras esterlinas”.

Seu revés, contudo, foram causados por seus investimentos no Uruguai, onde montou inclusive um banco, que acabaram por consumir todo seu patrimônio. Devido a essa reviravolta em sua vida, com a também decretação da falência de seu banco no Brasil em 1878, a Casa Mauá & Cia, Irineu edita um texto com a exposição de motivos, que apresentou aos credores e ao público⁶.

Aos leitores e analistas cuidadosos, é possível ler a íntegra do texto do Visconde de Mauá, pois o Senado Federal tem uma cópia da carta original.

Se meu livro sobre controles estivesse escrito há 200 anos atrás, e se Irineu o tivesse lido, teria aprendido a controlar melhor as dezenas de empresas que criou e que fracassaram ao longo das respectivas existências. Irineu foi roubado, enganado, trapaceado em praticamente todas elas. Sua carta, com 184 páginas, denomina-se “Exposição do Visconde de Mauá de Mauá e Cia aos Credores e ao Público”, impresso no Rio de Janeiro em 1878, onze anos antes dele falecer. Sua extensa carta detalha cada um dos seus empreendimentos e o que aconteceu com cada um. Diz ele, sobre as razões da carta:

“não posso ter outro objecto em vista senão salvar do naufragio aquillo que para mim vale mais do que quanto ouro tem sido extrahido das minas da California, um nome puro, pois persisto em acreditar que o infortunio não é um crime”.

Ou seja, com sua carta pretendia salvar sua reputação, atribuindo o fracasso ao infortúnio, ou seja, ao acaso, à sorte. Não é isso que podemos interpretar de sua extensa e detalhada carta. São mais de 20 empresas, conforme Irineu Lista; em quase todas ele foi fraudado, enganado, roubado, mas descuidou, não controlou seus negócios, quis abarcar muitas coisas, perdeu o foco nos itens mais relevantes.

Eis a lista, conforme sua carta, que detalha cada caso individualmente:

  1. Estaleiro e fundição da Ponta da Areia
  2. Companhia de Rebocadores para a Barra do Rio Grande
  3. Companhia de Iluminação a gaz do Rio de Janeiro
  4. Serviços prestados no Rio da Prata, atendendo o Governo
  5. Companhia Fluminense de Transportes
  6. Banco do Brasil (anterior ao atual de 1878)
  7. Companhia da Estrada de Ferro de Petropolis (vulgo Mauá)
  8. Companhia Navegação a Vapor do Amazonas
  9. Serviços prestados à organização da Estrada de Ferro de Pernambuco em Londres
  10. Serviços prestados à realização da Estrada de Ferro da Bahia
  11. Companhia Diques Flutuantes
  12. Companhia de Curtumes
  13. Companhia Luz Estearica
  14. Montes Aureos Brazilian gold mining Company
  15. Estrada de Ferro Santos a Jundiahy
  16. Serviços prestados à Estrada de Ferro de D. Pedro II
  17. Serviços prestados ao caminho de ferro da Tijuca
  18. Botanic Garden’s Rail Road Cy
  19. Exploração da Estrada de Ferro do Paraná à Mato Grosso
  20. Cabo Submarino
  21. Abastecimento de agua à capital do Império
  22. Estrada de Ferro do Rio Verde
  23. Banco Mauá & C e suas ramificações dentro e fora do paiz
  24. Serviços prestados à agricultura

A primeira atividade foi o Estaleiro, pois viu na Inglaterra a importância de se construir embarcações, bem como visitou fundições; em onze anos fabricou 72 navios, até que o Império liberou a importação sem que houvesse impostos. Um incêndio de grande proporção e a falta de encomendas acabaram por fechar seu primeiro negócio.

Tendo visto a grande expansão das ferrovias na Europa, Irineu montou a primeira no Brasil, ligando o Rio de Janeiro com a raiz da serra de Petropolis, onde o Imperador passava no verão. Inaugurada pelo próprio imperador em 1854, que sem usar o brilho de Irineu, contrata com os ingleses a Estrada de Ferro D. Pedro II em 1855, um projeto do que seria, mais tarde, a Ferrovia Central do Brasil. Literalmente, o imperador “lhe passou uma rasteira”. D. Pedro era um homem erudito, que lia e falava   latim, francês, alemão, inglês, italiano, espanhol, grego, árabe, hebraico, sânscrito, chinês e tupi, trabalhador, estudioso. Além disso, viajou o mundo todo e tinha plena ciência da importância das ferrovias no desenvolvimento da Europa. Mas sua cabeça foi contaminada por assessores que tinham inveja de Irineu, e lhe apoiaram conceitos contra a autonomia empresarial de Irineu, sugerindo que fizesse as ferrovias sob autonomia do império.

De fato, escreveram sobre D. Pedro II e Irineu Evangelista:

D Pedro II foi talvez o maior responsável pela falência do mais promissor empresário brasileiro de todos os tempos. Talvez com isso ele tenha atrasado a industrialização do pais em pelo menos meio século: “O maior empresário A partir de 1850 o Brasil começa a viver um período de estabilidade política, no qual ocorrem algumas mudanças na região Sudeste, onde havia uma economia mais dinâmica e isso provoca também uma certa modernização capitalista no país. Uma das figuras que mais se destacou no século XIX, no campo da economia, das finanças e dos empreendimentos modernos, foi o Barão de Mauá, depois Visconde de Mauá.

Seu nome era Irineu Evangelista de Sousa. Nascido no Rio Grande do Sul, Irineu ficou órfão de pai aos 5 anos. Foi morar no Rio de Janeiro e aos 11 anos já trabalhava como contínuo, aos 15 era o empregado de confiança do patrão. Aos 23 já era sócio da firma escocesa onde trabalhava. Aos 27 anos, o ex-menino pobre viajou até a Inglaterra, conhecendo assim o país mais rico do mundo, visitando fábricas, fundições de ferro, muitos empreendimentos comerciais importantes.  De volta ao Brasil, resolve tornar-se industrial. Foi o primeiro do Brasil, aos 32 anos. Visitando uma fundição de ferro na Inglaterra, Mauá escreveu: “Era precisamente o que eu contemplava como uma das necessidades primárias para ver aparecer a indústria propriamente dita no meu país… é a indústria que manipula o ferro, sendo a mãe das outras, que me parece o alicerce”.

Aos 40 anos Mauá já estava rico. Investiu na indústria pesada, fundições, estradas de ferro, estaleiros. “Fabricava ferro, sinos, pregos e navios a vapor. Em menos de uma década tinha setecentos operários de várias nacionalidades”. Fundou também a Companha de Iluminação a Gás do Rio de Janeiro, companhias de navegação e companhias de bonde, e construiu estradas de ferro, inclusive a Estrada de Ferro do Recife ao São Francisco, a segunda do Brasil, e mais 17 empresas instaladas em seis países. O Barão foi precursor de multinacionais, da globalização e do Mercosul, e no Brasil seus negócios se espalhavam do Amazonas ao Rio Grande do Sul. Mauá era um empresário da diversificação. Tudo que era moderno tinha suas mãos. Financista, o Barão tinha bancos, empresas de comércio exterior, mineradoras, usinas de gás, fazendas de gado e sócios milionários em toda a Europa.

No Rio de Janeiro, Mauá tinha a melhor demonstração dos seus negócios com seus navios a vapor, sua estrada de ferro até Petrópolis, as luzes da cidade com a companhia de iluminação a gás dos lampiões, as velas que se consumiam nas casas, a água que chegava pelos canos de ferro instalados por seus engenheiros. Tudo no Brasil que significasse desenvolvimento e progresso, onde não houvesse escravos, tinha a marca de Mauá. Ele controlava 8 das 10 maiores empresas do país; as duas excluídas, eram o Banco do Brasil e a Estrada de Ferro D. Pedro 2º, ambas estatais. Sua fortuna em 1867, atingiu o valor de 115 mil contos de réis, enquanto o orçamento de todo o império contava apenas com 97 mil contos de réis. Sua fortuna seria o equivalente a 60 milhões de dólares, hoje.

Mas, o Visconde de Mauá era um estranho no ninho. No ninho de um país ruralista, escravocrata e latifundiário, cuja economia vivia sob o controle estatal. Por isso era incompreendido e até perseguido, era “desprezado e talvez invejado por D. Pedro II, o monarca iluminista que só admirava as letras quando não eram promissórias e números se fossem abstratos… Jamais tiveram alguma discussão pública … mas sua incompatibilidade de gênios era notória. Mauá cometia o supremo pecado de ser devotado ao lucro e isso o arqueólogo diletante, linguista e filólogo, astrônomo amador… botânico de fim de semana, D. Pedro II, não podia tolerar”.

Em consequência disso, os políticos partidários do imperador inviabilizavam quanto podiam os projetos de Mauá, até ao ponto de torná-los impossíveis. O Visconde era um gigante em terra de anões. Afinal depois de muita perseguição em 1875, Mauá faliu e pediu moratória por 3 anos. Vendeu tudo o que tinha ( 60 milhões de dólares ) pagou todas as dívidas e limpou seu nome.

Outro detalhe importante da vida do Visconde de Mauá, e de grande importância para o Brasil de hoje foi sua iniciativa de criar a São Paulo Railway10, que originalmente ligou o porto de Santos com a cidade de Jundiaí, propiciando um caminho para a exportações do café paulista. Mauá inclusive financiou parte dessa brilhante obra ferroviaria, que venceu os 700 metros da serra do mar, com sua casa bancária, o então Banco Mauá e Cia. Onde ele, como já dissemos em outras partes desse estudo, foi roubado, fraudado.


¹Fonte,wikipedia em https://pt.wikipedia.org/wiki/Irineu_Evangelista_de_Sousa#O_banqueiro

²Mesma fonte da nota 86, em “Cronologia”

³Fonte, https://papodehomem.com.br/irineu-evangelista-de-sousa-homens-que-voce-deveria-conhecer/

O filme pode ser visto em https://www.youtube.com/watch?v=MhiVg4R16YU

Vide a fonte da nota 86

Fonte, Sousa, Irineu Evangelista, Visconde de Mauá (1998) Exposição aos Credores e ao Público 3ª ed. , Rio de Janeiro: Topbooks .

A cópia pode ser  obtida em  http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/242460 http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/242460

Fonte, https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_II_do_Brasil

Fonte, http://advivo.com.br/blog/paulo-cezar/pedro-ii-e-o-barao-de-maua

¹⁰Fonte, https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Paulo_Railway